quanto de vida cabe
“quanto de vida cabe em uma semana?”
Essa é a segunda frase que eu mais repito no meu Instagram – a primeira é “eu sou mais feliz correndo” – e ela nunca fez tanto sentido como nas últimas três semanas.
Os últimos vinte e um dias tiveram uma vida inteira contida dentro deles.
A semana que começou com meu coração em compasso de espera por conta das minhas primeiras férias-férias-férias em anos ganhou novo contorno quando recebi uma mensagem pelo Strava. Sim, prezados leitores, o Strava também tem mensagens diretas, apenas não sabemos disso.
Ou pelo menos eu não sabia. Até um menino que um dia treinou no mesmo horário que eu no Pacaembu ter me mandado uma mensagem me chamando de “meu crush do Strava” e perguntando se eu tinha me lesionado.
Uma mensagem que chegou pelo Strava depois de eu ter inativado minha conta no Bumble e ter dito ao Universo: se o amor quiser me encontrar vai ter de bater na minha porta.
Corta para uma das minhas melhores amigas me explicando dias depois que atualmente temos muito mais tipos de portas, algumas sem batente, algumas sanfonadas e até aquelas de cortininha de farrapos, bem fluida, tipo mensagem em aplicativo de corrida.
A mensagem virou um encontro e me vi diante de um menino que me faria ticar todos os quadradinhos da lista mental do que eu queria em alguém pra mim: um emo fã de Fresno, comunista, inteligente (absurdamente inteligente), amante da pizza com vinho, divertido, um corredor com amor pela corrida e não pelo pace.
O menino que me ganhou quando falou que tinha chorado durante as cinco primeiras músicas do show do Fresno em que eu estava chorando há menos de dois metros de distância dele.
E então fui pra Salvador levando comigo essa esperança boa, mas a guardei no cofre do hotel com o fone de ouvido com isolamento, o celular da empresa, a blusa usada no avião e a vida real.
Me dei aquela semana toda, sem horário dos outros, sem compromisso dos outros, sem música alta abafando o barulho das muitas abas do meu cérebro, decidindo o “pra onde ir” no momento de ir, decidindo não ir ou ficar “porque sim”. Ouvindo o mar, sentindo a areia nos pés, entrando no mar salgado, passando aba por aba aberta com mais cuidado, descobrindo o tanto que a Bahia combina comigo.
Claro que quando voltei tirei tudo do cofre, inclusive a esperança boa e fiquei torcendo para que tudo não tenha sido apenas o sonho de uma noite de outono – informo que continuo na torcida, mas sigo vivendo enquanto isso.
Sim, voltamos a vida real, mas graças aos dias fora dela e ao cheiro do mar da praia da Barra ainda na memória foi tão mais fácil lidar com a melancolia da lua azul na noite do meu aniversário e a troca de década na idade.
Quando, na véspera do meu aniversário, fui juntar os recortes do meu ano em um reels de um minuto e meio, eu chorei . Foi tanta vida neste ano. TANTA VIDA.
Os shows, os risos, os amigos, os vinhos, as sessões no Cinesala seguidas de hamburguer e vinho no Clementina, os bloquinhos de carnaval, o choro em um bloquinho de carnaval, os meus cafés da manhã sem pressa, as paixões que partiram meu coração, os encontros que viraram motivo para os amigos darem risada, o trabalho louco, os projetos entregues, os muitos treinos, as corridas sofridas e sorridas.
Bad Bunny está certo: tirem mais fotos, façam mais vídeos. Eu nunca fui tão grata por ter uma galeria tão cheia, um Instagram com tantas publicações.
Eu nem sei explicar para vocês o quanto me sinto grata por tudo isso, por cada pedacinho disso.
Não sei se o menino fã de Fresno vai ficar.
Aprendi neste ano a assumir que sou mesmo intensa demais. E que por isso não será qualquer um que vai escolher ficar, ainda mais quando é tão fácil simplesmente seguir sem escolher e se manter no raso com as várias opções.
Neste momento estou de bem de verdade com a ideia de que talvez eu nunca encontre esse alguém. Fala isso sem melancolia, apenas com a certeza de que minha vida está recheada de amor porque eu amo intensamente e isso já valeu a pena.
